Uma eleição aberta e com margem mínima entre os candidatos
O segundo turno das Eleições 2026 começa com um cenário que poucos analistas poderiam tratar como definido.
Após a apuração do primeiro turno, o senador Flávio Bolsonaro (PL) terminou na primeira colocação, com 56.104.268 votos, ou 47,03% dos votos válidos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou em segundo, com 53.876.617 votos, equivalentes a 45,16%.
Os números oficiais foram divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que confirmou a realização do segundo turno entre os dois candidatos.
A diferença de 1,87 ponto percentual é particularmente relevante. Segundo levantamento da Folha de S.Paulo, trata-se da menor distância entre os dois candidatos mais votados em um primeiro turno presidencial desde a redemocratização.
O segundo turno está marcado para 25 de outubro de 2026. A votação ocorrerá das 8h às 17h, pelo horário de Brasília.
A partir de agora, portanto, a eleição deixa de ser uma disputa entre vários projetos e passa a ser uma escolha direta entre dois nomes e duas visões políticas distintas para o país.
O que o primeiro turno revelou
O resultado de 4 de outubro produziu uma fotografia importante do eleitorado brasileiro.
Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula no total nacional e conseguiu desempenho superior ao candidato petista em quatro das cinco grandes regiões brasileiras: Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Norte. Lula manteve uma vantagem expressiva no Nordeste, região que continua sendo um dos principais pilares eleitorais do PT.
No Sul, Flávio alcançou aproximadamente 60% dos votos válidos, enquanto Lula manteve ampla vantagem no Nordeste, com cerca de 64%.
O mapa eleitoral mostra, portanto, que o segundo turno não será decidido apenas pela capacidade dos candidatos de manter suas bases tradicionais. A disputa dependerá principalmente de quem conseguir ampliar sua votação nos estados mais populosos e conquistar parte do eleitorado que optou por outros candidatos no primeiro turno.
Outro dado chama atenção: Flávio conseguiu conquistar 714 municípios que haviam dado maioria a Lula em 2022, segundo levantamento baseado nos dados do TSE. Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo aparecem entre os estados com maior número dessas mudanças.
Isso indica que o desempenho da direita não se limitou aos seus redutos tradicionais.
A importância dos votos dos candidatos que ficaram pelo caminho
Com apenas dois nomes na disputa, milhões de eleitores que escolheram outros candidatos no primeiro turno agora terão de tomar uma nova decisão.
Candidatos como Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema ficaram fora da disputa presidencial, e seus eleitores passam a representar um grupo relevante para o segundo turno.
O desafio de Flávio Bolsonaro é transformar a liderança obtida no primeiro turno em uma coalizão eleitoral suficientemente ampla para ultrapassar os 50% dos votos válidos.
Para Lula, a tarefa é ainda mais clara: recuperar terreno entre eleitores que não votaram no PT no primeiro turno e impedir que a vantagem obtida pelo candidato do PL se amplie.
Nesse cenário, apoios políticos, alianças estaduais e a capacidade de mobilização das campanhas podem assumir peso considerável.
Um exemplo já apareceu em São Paulo. O governador Tarcísio de Freitas declarou apoio a Flávio Bolsonaro após o primeiro turno e afirmou que pretende ajudar na campanha. São Paulo é o maior colégio eleitoral do país e teve forte peso no resultado presidencial.
A abstenção pode ser decisiva
Outro fator que merece atenção é o número de brasileiros que não compareceram às urnas.
O primeiro turno de 2026 registrou 21,08% de abstenção, equivalente a aproximadamente 33,4 milhões de eleitores, segundo dados da Justiça Eleitoral. Foi o maior índice de abstenção em um primeiro turno presidencial desde 2006.
Em uma eleição tão equilibrada, a mobilização desses eleitores pode alterar significativamente o resultado.
Estados importantes para a disputa apresentaram taxas de ausência superiores à média nacional. São Paulo registrou 22,54%, Minas Gerais 22,79% e Rio de Janeiro 23,32%. Nos três estados, Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula no primeiro turno.
Ainda não é possível afirmar qual candidato será beneficiado pela mobilização dos ausentes. O perfil dos eleitores que não compareceram ao segundo turno pode ser diferente daquele observado no primeiro, e os dados detalhados ainda precisam ser analisados.
Uma coisa, porém, é evidente: em uma eleição decidida por menos de dois pontos percentuais, milhões de eleitores que simplesmente não votarem podem ter peso maior do que qualquer pesquisa isolada.
A batalha pelo Nordeste
Se o primeiro turno mostrou a força eleitoral de Flávio Bolsonaro em boa parte do país, também confirmou a importância do Nordeste para Lula.
O petista manteve ampla vantagem na região, enquanto Flávio terá agora o desafio de reduzir essa diferença.
Para Lula, conservar sua vantagem nordestina será fundamental. Para Flávio, qualquer crescimento em estados da região pode representar votos adicionais importantes em uma disputa nacional extremamente apertada.
A campanha do segundo turno deverá, portanto, dedicar atenção especial ao Nordeste, mas sem abandonar os grandes colégios eleitorais do Sul e Sudeste.
São Paulo, Minas Gerais e os grandes colégios eleitorais
A disputa também passa pelos estados mais populosos.
São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro possuem enorme peso na composição do resultado nacional. No primeiro turno, Flávio conseguiu vantagem nos três estados, embora a situação tenha diferenças importantes entre eles.
Minas Gerais merece atenção especial por seu tamanho eleitoral e por seu histórico de eleições presidenciais equilibradas.
O estado também apresentou uma das maiores mudanças em relação ao mapa de 2022: Flávio terminou o primeiro turno com 48,2% dos votos válidos em Minas Gerais, segundo levantamento publicado pela Folha.
A capacidade de Lula recuperar espaço nesses grandes colégios eleitorais será um dos principais pontos de observação durante as próximas semanas.
Pesquisas do segundo turno ainda estão começando
Um cuidado importante neste momento é não confundir o resultado do primeiro turno com uma previsão do segundo.
As primeiras pesquisas nacionais específicas da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro começaram a ser realizadas imediatamente após o primeiro turno. O Datafolha, por exemplo, iniciou entrevistas entre 6 e 8 de outubro e programou a divulgação do levantamento para 8 de outubro. O levantamento tem registro no TSE e prevê 2.520 entrevistas, com margem de erro de dois pontos percentuais.
Isso significa que ainda é cedo para afirmar quem será o favorito definitivo do segundo turno com base em pesquisas nacionais pós-primeiro turno.
O resultado das urnas é um dado concreto. Pesquisas, por outro lado, são fotografias de determinado momento e precisam ser acompanhadas ao longo da campanha.
Economia também entra no centro da disputa
Além da polarização política, a campanha deverá ser influenciada por temas econômicos.
Inflação, juros, emprego, impostos, gastos públicos, dívida, investimentos e crescimento econômico estarão entre os assuntos capazes de influenciar a decisão do eleitor.
O mercado financeiro também acompanha a disputa. Após o primeiro turno, houve forte movimentação de investidores estrangeiros na Bolsa brasileira, em meio às expectativas sobre o cenário político e econômico do próximo governo.
Para o eleitor, entretanto, o principal debate não deveria ser apenas sobre a reação imediata do mercado. O ponto central será entender quais propostas os candidatos apresentam para as contas públicas, geração de empregos, investimentos e crescimento econômico nos próximos quatro anos.
Os planos de governo oficiais dos dois candidatos estão disponíveis no sistema do TSE, permitindo a comparação direta das propostas apresentadas por Lula e Flávio Bolsonaro.
O que pode definir o segundo turno?
Com pouco mais de duas semanas até a votação, alguns fatores devem ser acompanhados de perto:
1. Transferência de votos
Eleitores dos candidatos eliminados precisarão escolher entre Lula, Flávio ou outras opções, como voto branco, nulo ou abstenção.
2. Mobilização eleitoral
A capacidade de cada campanha de levar seus apoiadores às urnas poderá ser decisiva.
3. Nordeste
Lula precisa preservar sua vantagem regional, enquanto Flávio tentará reduzir essa distância.
4. Sudeste
São Paulo e Minas Gerais possuem peso suficiente para alterar significativamente o resultado nacional.
5. Debate econômico
Inflação, emprego, impostos, juros e responsabilidade fiscal estarão entre os temas com maior potencial de influência sobre o eleitor.
6. Rejeição
Em uma disputa polarizada, convencer quem rejeita o adversário pode ser tão importante quanto conquistar novos apoiadores.
7. Debates e campanha
Os próximos confrontos entre os candidatos podem influenciar eleitores indecisos e aqueles que ainda não definiram seu voto.
Uma disputa que começa praticamente do zero
Embora Flávio Bolsonaro tenha terminado o primeiro turno à frente, a vantagem de 1,87 ponto percentual está longe de representar uma eleição decidida.
O candidato do PL parte de uma posição numericamente favorável, mas Lula mantém uma base eleitoral consolidada e uma vantagem significativa no Nordeste.
Ao mesmo tempo, milhões de votos foram destinados a candidatos que não estão mais na disputa e mais de 33 milhões de eleitores não compareceram no primeiro turno.
O segundo turno será, portanto, uma disputa por transferência de votos, redução de rejeição e mobilização eleitoral.
Até 25 de outubro, cada campanha terá de responder a uma pergunta fundamental: como transformar sua base atual em uma maioria nacional?
O Brasil terá pouco mais de duas semanas para descobrir a resposta.
O cenário até aqui
Flávio Bolsonaro (PL): 47,03% — 56.104.268 votos
Lula (PT): 45,16% — 53.876.617 votos
Diferença: 1,87 ponto percentual
Segundo turno: 25 de outubro de 2026
A corrida presidencial está aberta — e, desta vez, cada voto poderá fazer a diferença.
Fontes: Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Quaest, Datafolha e Folha de S.Paulo.
Observação editorial: os dados de pesquisas eleitorais podem mudar ao longo da campanha. Este artigo considera as informações disponíveis até 7 de outubro de 2026.


